sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009
tentaram responsabilizar-me
pela morte do computador da Trama. Mas não, meus amigos, com essa não me apanham, a história do galão foi há dois meses.
quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009
oito anos depois deixam-me isto no colo
Comme te po' capì chi te vò bene
si tu le parle 'mmiezzo americano?
Quando se fa l 'ammore sotto 'a luna
come te vene 'capa e di:"I love you!?"
si tu le parle 'mmiezzo americano?
Quando se fa l 'ammore sotto 'a luna
come te vene 'capa e di:"I love you!?"
sem título
Desconfio muito das pessoas que se conhecem a si próprias. Desconfio quase tanto como das que, para além desse auto-conhecimento, se propõem a compreender o outro. Como se fosse possível não se estar completamente só. Como se fosse possível viver sem ter primeiro morrido, uma, duas, tantas vezes.
Há um circuito, muito simples, por onde as perguntas e respostas seguem. Eu, quando era pequena, tinha um jogo chamado O Sabichão. De um lado do tabuleiro estava desenhado um círculo rodeado por questões - era aí que se colocava o boneco, o tal do Sabichão, apontando para uma dessas grandes dúvidas, durante alguns segundos. Depois era pegar nele e colocá-lo muito direitinho no outro círculo, ao lado, para que ele rapidamente rodopiasse e, plim, o Sabichão apontava a resposta certa. É assim a minha cabeça, e a tua. As mesmas perguntas, as mesmas respostas. E andamos sozinhos às voltas a matraquear as mesmas coisas.
E depois há a terapia: sentas-te numa cadeira, falas durante uma hora a olhar para o chão, e já não ouves aquela voz, que te dizia você tem muita raiva dentro de si ou você fez isso como resposta ao seu pai, o seu pai interior ou você sente-se muito sozinho porque o que sentes é o rosto muito tenso, demasiado vermelho, paralisado, e uma vontade estúpida de rir: tu, o Sabichão, estás a andar à roda e, desta vez, não tens onde parar - nenhuma das tuas respostas é válida. E agora?
Há um circuito, muito simples, por onde as perguntas e respostas seguem. Eu, quando era pequena, tinha um jogo chamado O Sabichão. De um lado do tabuleiro estava desenhado um círculo rodeado por questões - era aí que se colocava o boneco, o tal do Sabichão, apontando para uma dessas grandes dúvidas, durante alguns segundos. Depois era pegar nele e colocá-lo muito direitinho no outro círculo, ao lado, para que ele rapidamente rodopiasse e, plim, o Sabichão apontava a resposta certa. É assim a minha cabeça, e a tua. As mesmas perguntas, as mesmas respostas. E andamos sozinhos às voltas a matraquear as mesmas coisas.
E depois há a terapia: sentas-te numa cadeira, falas durante uma hora a olhar para o chão, e já não ouves aquela voz, que te dizia você tem muita raiva dentro de si ou você fez isso como resposta ao seu pai, o seu pai interior ou você sente-se muito sozinho porque o que sentes é o rosto muito tenso, demasiado vermelho, paralisado, e uma vontade estúpida de rir: tu, o Sabichão, estás a andar à roda e, desta vez, não tens onde parar - nenhuma das tuas respostas é válida. E agora?
déja vu
ontem, ao fim da tarde, uma das nossas clientes de idade mais avançada passou por cá. perguntou-me se seria possível, pagando um certo valor, ficar na livraria sentada a ler um livro, explicando-me, de seguida, que mora aqui no lar ao cimo da rua e que os livros que tinha eram, por falta de espaço, já herança dos filhos. respondi-lhe que podia vir sempre que quisesse e que não tinha de pagar nada, os livros estão cá para isso mesmo, para serem descobertos. tão contente quanto espantada, perguntou-me o nosso horário. eu disse-lho e acrescentei que, no piso de cima, onde nunca se aventurara, havia sofás, uma chaleira e uma cafeteira e que, se precisasse, lhe podia dar o braço para subir e descer as escadas.
a senhora prometeu-me que vinha hoje à tarde, completamente esquecida de que era pelo menos a quinta vez que tínhamos aquela conversa.
a senhora prometeu-me que vinha hoje à tarde, completamente esquecida de que era pelo menos a quinta vez que tínhamos aquela conversa.
quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009
o homem da quarta-feira #16

«Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta, rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer. Como posso, assim, viver a felicidade?»
Stig Dagerman, "A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer", Fenda, 1995
com cinco letrinhas e um flash
Pag. 62 - Dependia de uma trama de circunstâncias - talvez dependesse de mim - que seguisse os fáceis meandros do coleccionador ou do sportsman ou que se aventurasse pelas imprevisíveis avenidas da ciência.
Silvina Ocampo & Adolfo Bioy Casares - Quem Ama, Odeia - Oficina do Livro (tradução de Jorge Fallorca)
Silvina Ocampo & Adolfo Bioy Casares - Quem Ama, Odeia - Oficina do Livro (tradução de Jorge Fallorca)
merci, mestre belard
planos para dezembro? (info completa)
quarta-feira, 9 de Dezembro às 21h30
apresentação do livro Foi em Novembro que partiste...
de Hugo Roque
com apresentação de Pedro Paixão
apresentação do livro Foi em Novembro que partiste...
de Hugo Roque
com apresentação de Pedro Paixão
quinta-feira, 10 de Dezembro às 22h00
Suzie's Velvet
www.myspace.com/suziesvelvet
www.myspace.com/suziesvelvet
Há coisas que se ouvem vezes sem conta porque merecem. Parece que foram feitas para durar mais do que nós. Já ouvimos estes temas em qualquer lado, sem sabermos definir o local, a que horas nem com quem. Há coisas que se repetem porque são boas e por mais que tentemos descortinar qual a razão, só conseguimos chegar a abstractas palavras do estilo: é fresco, sabe a fruta.
Há coisas de que não se fala, ouvem-se.
Inês Sousa - Voz | Margarida Campelo - Piano, Rhodes e Voz | Bruno Pernadas - Guitarra | Gonçalo Leonardo - Contrabaixo | João "Joca" Correia - Bateria
sexta-feira, 11 de Dezembro às 22h00
RG Trio
www.myspace.com/rogeriogodinho
RG Trio
www.myspace.com/rogeriogodinho
sábado, 12 de dezembro às 18h00
Na Trama, dia 12 de Dezembro às 18 horas entre num Universo fantástico, eternizado em imagens, gravuras inéditas, acompanhadas da leitura de poemas de Luísa Proença.
O pretexto para a realização deste evento será a apresentação do livro "Fábulas" baseado num poema de Luisa Proença e ilustrado pelos artistas gravadores que compõem o Atelier de Gravura Contraprova. Será uma oportunidade única para a aquisição de uma edição limitada, em vários formatos, composta por 12 gravuras originais, assinadas e numeradas pelos autores.
Não falte, conceda este tempo a si próprio e ao seu imaginário.
www.contraprova-gravura.blogspot.com
entrada livre
quinta-feira, 17 de Dezembro às 22h00
New Trio
New Trio
João Lencastre (bateria) | Nuno Costa (guitarra) | Zé Maria (sax)
sexta-feira, 18 de Dezembro às 22h00
Dominó
Dominó
€3,00
sábado, 19 de Dezembro às 18h00
Ciclo de tertúlias "Cabo Verde em Debate"
Lançamento da ONGA 5elemento.org
com música a cargo de Alek Rein (www.myspace.com/alekrein) seguido de Cid Carmo e Nuno Melo - Instrumental Bossas NovasCiclo de tertúlias "Cabo Verde em Debate"
O Ciclo de Tertúlias “Cabo Verde em Debate” pretende ser um espaço privilegiado de debate aberto, reflexão intelectual e crítica intersubjectiva entre jovens universitários da diáspora cabo-verdiana em Portugal: um fórum de discussão institucionalizado que irá enquadrar as diversas discussões avulsas e desconjuntadas (conversas de café) sobre o panorama social, político, cultural e académico cabo-verdiano numa única plataforma de diálogo cívico.
Organização: A Tertúlia Crioula é uma organização académica e de intervenção cívica, sem fins lucrativos, apartidária e independente de organizações políticas, cujo propósito fundamental é promover e divulgar actividades cívicas e projectos académicos de fomento ao espírito crítico no seio da comunidade académica cabo-verdiana.
Tema da primeira tertúlia: Os Jovens e a Participação Política em Cabo Verde
A sessão seguinte será a 30 de Janeiro e terá como tema "A Problemática da Regionalização e Descentralização Política em Cabo Verde: Que Caminhos?
segunda-feira, 21 de Dezembro às 21h30Organização: A Tertúlia Crioula é uma organização académica e de intervenção cívica, sem fins lucrativos, apartidária e independente de organizações políticas, cujo propósito fundamental é promover e divulgar actividades cívicas e projectos académicos de fomento ao espírito crítico no seio da comunidade académica cabo-verdiana.
Tema da primeira tertúlia: Os Jovens e a Participação Política em Cabo Verde
A sessão seguinte será a 30 de Janeiro e terá como tema "A Problemática da Regionalização e Descentralização Política em Cabo Verde: Que Caminhos?
entrada livre
Lançamento da ONGA 5elemento.org
www.5elemento.pt
quarta-feira, 23 de Dezembro às 22h00
Concerto de Natal
Ventilan
Os Ventilan não nasceram de uma ideia, nasceram de uma vontade. Não são, por isso, um projecto. São puro acto. Seguem à risca a máxima segundo a qual a poesia é cada vez mais claramente a antimatéria da sociedade de consumo. Cada acto é um ensaio e cada ensaio é, helás!, um acto. Raramente o acto acontece mais que uma vez por ano. Os (in)suspeitos implicados são: Nuno Moura na leitura, Pedro Serpa nos sopros, Henrique Fialho nas cordas, Luís Fonseca no teclado. Por cima do ruído é costume escutarem-se versos, mas nada impede que por cima dos versos se venha a escutar ruído. Tudo porque a poesia é, também e talvez sobretudo, para gingar, pronunciar, respirar, dançar, menear, cantarolar, representar, exorcizar, clamar, vociferar, gritar, goelar, tragar, manjar, respirar, respirar, respirar.Concerto de Natal
Ventilan
Nuno Moura | Henrique Fialho | Pedro Serpa | Luís Fonseca

€3,00
Nota: nos dias 4 e 5 não haverá qualquer movimentação nocturna na Trama
Nota: nos dias 4 e 5 não haverá qualquer movimentação nocturna na Trama
terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
segunda-feira, 30 de Novembro de 2009
Não respire... (ou leituras em apneia) #1

Raul Brandão, "Húmus", Campo das Letras, 2000
Pode respirar.
Queridos Tramas
«Não podia deixar de o dizer:
A noite de Sábado foi do melhor e teve de tudo, desde:
- Cãocrodilos charmosos a atender ao balcão com um esmero inquestionável;
- Amendoins abençoados cujo teor calórico nos tornou possível a efusiva e manifesta gabarolice;
- Livreira com vestido retro, a lembrar um quadro de Hopper num café parisiense (gostei de lhe ter acertado com a pevide na língua, logo à primeira);
- Livreiro xamã que passou a noite a chamar 'fanfarrão' a escritores frustrados (por isso as festas na nuca, tão doces e que bem me souberam);
- Guitarrista ‘andante’ a experimentar todo o tipo de adereço feminino, sempre com grande sucesso (esperemos pelas fotos para a pontuação final);
- Meninas bonitas meio tontas a dançarem o Last Splash das Breeders como se tivessem novamente 17 anos (e ainda bem que não tinham, pois com 17 anos ainda dá multa);
- Tradutores prazenteiros cujo abraço valeu ouro, tipo aquele ouro de abraçar sangue irmão;
- O comunicável casal Alvim, com quem nunca me canso de conversar, porque aprendo sempre alguma coisa;
- A música do vasco felino que parecia poesia em frequência feromónica (isto existe?);
- Escritores tímidos com livros assinados e mails escritos numa ofensiva clara de engate (juízo onde andas? obrigado catarina, mas ela ainda não respondeu. ainda... era gira, não era?)
- Raparigas com pés torcidos, outras com meias coloridas às riscas;
- Raparigas com cabelo cenoura a emitir estalos com a língua a fazer lembrar o som das bolas extra dos flippers antigos;
- Vocalista cinematográfica a quem apetece trancar em quartos de hotel e despejar todas as polaróides
- Fotógrafos exímios na vertente paparázzíca (mais uma vez, esperamos por elas)
- Conversas no parapeito que quase me fizeram chorar, de alegria e tristeza, com amigos que se tornam cada vez mais amigos.
Como vêem, a Trama não é só a Trama. A Trama é algo que nem vocês poderão ainda saber. Porque todos os bocadinhos dela, estão espalhados por cada um de nós.
Um beijo e abraço
Deste vosso amigo
Fernando Dinis»
A noite de Sábado foi do melhor e teve de tudo, desde:
- Cãocrodilos charmosos a atender ao balcão com um esmero inquestionável;
- Amendoins abençoados cujo teor calórico nos tornou possível a efusiva e manifesta gabarolice;
- Livreira com vestido retro, a lembrar um quadro de Hopper num café parisiense (gostei de lhe ter acertado com a pevide na língua, logo à primeira);
- Livreiro xamã que passou a noite a chamar 'fanfarrão' a escritores frustrados (por isso as festas na nuca, tão doces e que bem me souberam);
- Guitarrista ‘andante’ a experimentar todo o tipo de adereço feminino, sempre com grande sucesso (esperemos pelas fotos para a pontuação final);
- Meninas bonitas meio tontas a dançarem o Last Splash das Breeders como se tivessem novamente 17 anos (e ainda bem que não tinham, pois com 17 anos ainda dá multa);
- Tradutores prazenteiros cujo abraço valeu ouro, tipo aquele ouro de abraçar sangue irmão;
- O comunicável casal Alvim, com quem nunca me canso de conversar, porque aprendo sempre alguma coisa;
- A música do vasco felino que parecia poesia em frequência feromónica (isto existe?);
- Escritores tímidos com livros assinados e mails escritos numa ofensiva clara de engate (juízo onde andas? obrigado catarina, mas ela ainda não respondeu. ainda... era gira, não era?)
- Raparigas com pés torcidos, outras com meias coloridas às riscas;
- Raparigas com cabelo cenoura a emitir estalos com a língua a fazer lembrar o som das bolas extra dos flippers antigos;
- Vocalista cinematográfica a quem apetece trancar em quartos de hotel e despejar todas as polaróides
- Fotógrafos exímios na vertente paparázzíca (mais uma vez, esperamos por elas)
- Conversas no parapeito que quase me fizeram chorar, de alegria e tristeza, com amigos que se tornam cada vez mais amigos.
Como vêem, a Trama não é só a Trama. A Trama é algo que nem vocês poderão ainda saber. Porque todos os bocadinhos dela, estão espalhados por cada um de nós.
Um beijo e abraço
Deste vosso amigo
Fernando Dinis»
Ai que os específicos continuam a chegar

Este livro é mesmo incrível.
Só por causa disso vou escrever todos os tópicos, um a um:
- The Texture of Silence
- Faith, Silence and Darkness Entwined in Messiaen's "Regard du Silence"
- Sounding Silence, Moving Stilness: Olivier Messiaen's Le Banquet Céleste
- Going Gently: Contemplating Silences and Cinematic Death
- Film Sound, Music and the Art of Silence
- Pragmatics of Silence
- Some Noisy Ruminations on Susan Sontag's "Aesthetics of Silence"
- Preliminary Thoughts About Silence in Early Western Chant
- The Communicative Rest
- The Air Between Two Hands: Silence, Music and Communication
- "Meditation is the Musick of Souls": the silent music of Peter Sterry
- Silent Music and the Eternal Silence
Sobre a Primeira Dama

Só para terem uma ideia:
- Pina Bausch life and work
- Bausch on Bausch
- Representation as process, process as representation
- Essential Elements
- Looking for Action
domingo, 29 de Novembro de 2009
a poesia não me interessa #10

Cânticos*
I
Não queiras ter pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Estarás em tudo,
Como Deus.
II
Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens ...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade ...
É a eternidade.
És tu.
III
Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.
* (3 de 26)
Cecília Meireles, "Antologia Poética", Editora Record, 1963
sábado, 28 de Novembro de 2009
sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
Toda a humilhação leva à morte #5
«Exprimir sob a forma de arte, com finalidade de catarse, uma tragédia interior, apenas o pode fazer o artista que, no momento em que vivia a tragédia, ia já tecendo os fios construtivos, ia já realizando a incubação criadora. Não existe a tempestade sofrida loucamente e, depois, a libertação através da obra, arriscando até o suicídio. É tão verdade que os artistas que realmente se mataram por causa dos seus casos trágicos são habitualmente cantores ligeiros, diletantes de sensações, que nunca nas suas obras deixaram transparecer nada do profundo cancro que os roía. Donde se conclui que o único modo de fugir ao abismo é encará-lo, medi-lo, sondá-lo e mergulhar nele.»
Cesare Pavese, "O Ofício de Viver", Relógio D'Água, 2004
À sombra do Sr Char

"És tu a minha mulher? A minha mulher feita para aguardar o encontro do presente? A hipnose da fénix cobiça a tua juventude. A pedra das horas investe-a da sua hera.
"És tu a minha mulher? O ano do vento onde guerreia uma nuvem antiga faz nascer a rosa, a rosa da violência.
A minha mulher foi feita para aguardar o encontro do presente.
O combate afasta-se e deixa-nos um coração de abelha sobre as nossa terras, a sombra desperta, o pão ingénuo. O serão esgueira-se lentamente para a imunidade da Festa.
A minha mulher feita para aguardar o encontro do presente."
-"Furor e mistério" - René Char
querido diário
agora que a festa da trama se aproxima temo estar a ver nascer uma borbulha debaixo do nariz.
ao telefone com um amigo
"por isso é que é muito importante que os poetas sejam felizes e tenham qualquer outra coisa para fazer."
«eventually, all at once»

"De facto, o que escrevi não contém, em particular, nenhuma pretensão a novidade; e assim não indico quaisquer fontes porque me é indiferente se o que pensei já foi pensado por outrem antes de mim."
Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico
quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
diário dos mesmos pesares #1

26 de Novembro
Às vezes digo para comigo: o teu destino não tem nenhum com que se compare: podes considerar todos os outros homens felizes... nunca mortal algum sofreu como tu.
Depois leio qualquer poeta de outros tempos e parece-me que estou lendo no meu próprio coração. Tenho tanto a suportar! Já haveria antes de mim homens tão infelizes como eu sou?
Goethe, "Werther", Guimarães Editores, 1998
depois, quando regressava
dois senhores conversavam ao meu lado, ambos carregados com sacos cor de mostarda, um deles com (outra vez!) o Fúria Divina na mão.
- Então, compraste-lhe esse?
- Sim.
- E ela consegue desligar a televisão e ficar assim sentada a ler?
- Não.
- Então? Para que é que lhe vais dar isso?
(o outro faz cara de sei lá)
- A minha irmã é que lê muito, passa noites em que desliga a televisão e fica só a ler.
- Pois, o Rui também é assim.
- Eu não consigo.
- Eu também não.
- Só nas férias.
- Sim, só na praia.
- Então, compraste-lhe esse?
- Sim.
- E ela consegue desligar a televisão e ficar assim sentada a ler?
- Não.
- Então? Para que é que lhe vais dar isso?
(o outro faz cara de sei lá)
- A minha irmã é que lê muito, passa noites em que desliga a televisão e fica só a ler.
- Pois, o Rui também é assim.
- Eu não consigo.
- Eu também não.
- Só nas férias.
- Sim, só na praia.
(a dada altura eu estava à espera que ele perguntasse: e vocês dormem juntos? e ela consegue desligar a televisão? Bem, só no Verão.)
um pr'a viagem
subo as escadas que ligam a estação de metro de entrecampos à estação de comboios e, por baixo dos ecrãs dos horários, dou de caras com o que parece ser uma banca de livros: é verdade, uma mesa com metro e meio de largura coberta por uma linda toalha amarela e, oh viajantes solitários sem a intuição do tempo (razão pela qual, tal como eu, foram olhar para o ecrã), que sorte, duas pilhas gigantes de livros! de um lado, para quem é apologista da lusofonia, uma torre de Fúria Divina; do outro, o novo do Dan Brown.
caramba: a minha preocupação, hoje, nem foi ideológica mas sim de outra ordem, bem mais superficial: estética. é que tudo ali era feio. o local, feio. a banquinha, tão feia quanto pobre. as capas dos livros: feias. tudo à volta, feio. para além de um ar extremamente suspeito: nenhuma informação sobre quem estaria responsável por aqueles livros, nada que identificasse as editoras ou a livraria, nem um papel com o preço dos livros. nada. era só muito, muito deprimente.
caramba: a minha preocupação, hoje, nem foi ideológica mas sim de outra ordem, bem mais superficial: estética. é que tudo ali era feio. o local, feio. a banquinha, tão feia quanto pobre. as capas dos livros: feias. tudo à volta, feio. para além de um ar extremamente suspeito: nenhuma informação sobre quem estaria responsável por aqueles livros, nada que identificasse as editoras ou a livraria, nem um papel com o preço dos livros. nada. era só muito, muito deprimente.
Portugal a Oriente

" E o mistério da minha alma está em não preferir qualquer delas, a morte ou a vida, e em ser capaz de as acarinhar e embalar por igual no regaço."
-"Testamento de Camilo Pesanha" - Danilo Barreiros
Arte é infecção*

-"Caderno de Demónios- últimos anos de Nietzsche ou a ilha dos mortos"- Carlos Couto Sequeira Costa
*Tolstoi
quarta-feira, 25 de Novembro de 2009
o homem da quarta-feira #15
«É um facto, Nietzsche enlouqueceu, Hölderlin endoideceu, Rilke não conseguiu entrar com o seu corpo no poema, Virginia Woolf suicidou-se, Spinoza acabou silenciando-se, Kafka foi apanhado a tempo por uma tuberculose galopante, Pessoa foi-se degradando no alcoolismo, Kierkgaard acabou triste e só. Nestas coisas, não há hereditariedade, mas há continuidade de problemática e, o que é bem mais importante, permanência do vórtice vibratório.»
Maria Gabriela Llansol, "Na Casa de Julho e Agosto", Relógio D`Água, 2003
Lembras-te?

"domingo à tarde. corríamos as ruas de Paris. assim que vimos estes cadernos entramos na loja e começamos a ouvir uma voz incrível que vinha lá de fora. eu consegui resistir, mas tu saíste como se a tua vida dependesse disso. e depende, descobri nessa viagem. as vidas dependem de cada instante. demorei um pouco mais porque tentava convencer a dona da loja a oferecer-me um poster que estava atirado para trás do balcão. era de uma exposição do michaux. seres estranhos que nessa tarde de aproximações se tornaram uma imagem familiar. voltaste a entrar e saímos juntos. a largos passos do local já estava comovido pelo som, pelas pessoas que tiraram uns minutos da sua corrida contra o tempo e congelaram-no, aquele instante em comunhão.
e a segunda peça era Gorecki. encostei-me às portadas de madeira escura, sem forças , como se tivesse expelido todo o ar, ar cansado, acumulado durante vários anos, talvez desde sempre.e tanto dissemos no nosso silêncio. confesso que sempre que te vejo, não é dos jantares no telhado que me lembro, não é das noites que ligávamos ao dia sem hora marcada, das gargalhadas dos ébrios de sono, nem do teu rosto na sombra dos arcos onde entoavas a palavra primordial.
é desse momento em que tudo se disse. sem uma palavra. sem um gesto. um momento de espanto.
mas isto tudo para te dizer que iniciei esta semana a escrever neste caderno; caderno que trazia na mão nas andanças dessa tarde.
e nessa altura pensava que um ciclo se havia fechado. por isso ainda te falava com um certo entusiasmo juvenil. afinal o ciclo acabou apenas há dias. com o fim de um outro caderno.
o caderno por vir anuncia o desastre.
e agora estás a sorrir."
- Paul Cardeaux -
I Throw Myself at Men
«Sou, neste momento, em parte um projéctil, em parte uma romântica idiota. Estas imagens são documentos de um gesto esperançoso e violento (...). Os homens frequentemente ficam aterrorizados ou pelo menos ligeiramente surpreendidos. O meu papel enquanto agressora é claro e penso que os meus saltos exemplificam o desejo de contacto humano.Até à data não houve ferimentos maiores.»
+ info sobre a artista, Lilly McElroy, aqui.
terça-feira, 24 de Novembro de 2009
Paradiso na Trama

Caro patrão o chefe Grande Hiena diz-me que esta é a melhor ficção sul- americana do século passado. Que tens a dizer sobre isto? Vais continuar a andar de jumenta ou atiras-te a isto?
Já me acusaram disto (Dramatic Imagination)

-"The Dramatic Imagination" - Robert Edmond Jones
Podem contar com:
-"A new kind of drama"
-"Art in the Theatre"
-"To a young stage designer"
-"Light and Shadow in Theatre"
-"Toward a new stage"
Não sei como é que alguém ainda não correu com isto porta fora

Contém (alguns tópicos) :
-"Whim, God and the Screen"
-"Marie/Eve: continuity and discontinuity in J L Godard"
- "Godard's vision of the New Eve"
-"Interviews with Godard"
E este, já têm?

56. Sou Muitos no que SINTO
PENSAR é ser só um; EXACTO
53. Não pensar no amor porque o amor não se pensa.
Pensar no amor ou é: não pensar, ou é: não amor.
40.
educar a metade que pena a não pensar.
Depois educar a parte que age a agir mais rápido.
Por fim educar a parte que educa com o SALTO; o felino ata-
ca a Presa e devora-lhe o Coração.
Sugestão do Irmão Karamazov

O 2º Aniversário merecia uma partida de futebol. "Os Garcias Marques" vs. "Os Juarroz".
Em caso de falta de inscrições resolvia-se com um campeonato de matraquilhos.
Arranjo bolas.
agora, a festa
No próximo sábado queremos festejar estes 2 anos e contamos com a vossa companhia. Não há dress code nem se paga para entrar. A nossa proposta é: consumo mínimo - 1 livro*.
Abertura das festividades às 21h30 com um DJ set do Pedro Serpa, pelas 23h um concerto dos Blackseat e, para terminar, vamos lá ver se há quem queira dançar: o som será da responsabilidade do DJ Kilas (o mau da fita).* vá, não é mesmo preciso comprarem um livro, é uma piada, a ver se pega.
2 anos ou «a escala do meu mundo»
Hoje a Trama escreve [entra uma rapariga, trocam-se bons dias] porque é preciso fazer um convite, é preciso dizer alguma coisa [a rapariga pede-nos que lhe guardemos um livro], é preciso explicar onde estamos e porque ficamos.
O que é esta livraria, num gesto? Como é que se move, como é que se estende, como é que deixa de ser uma loja para se tornar um passo? [a rapariga sai]
Esticando o braço,
movendo a mão,
abrindo mais os olhos,
inclinando ligeiramente o pescoço,
assim se vai fazendo uma livraria.
Depois dão-se umas quantas coincidências, encontram-se pessoas, criam-se desafios. E, podem crer, a cada livro vendido, nós vamos lá dentro. [a rapariga volta, vai, afinal, levar já o livro] Depois, ficamos atrás do balcão, vendo-nos ir: o tanto que ganhamos, o multibanco não contempla.
Talvez, nesta altura, se espere de nós um balanço mas - wise men say - deixem isso para os contabilistas. O nosso balanço só mede o que não se vê: uma soma de improbabilidades aliada à multiplicação de uns quantos milagres.
O texto não pode crescer, não quer fazer-se importante. Porque o que nos leva até aí não são discursos – são leituras.
Eles perguntam
“mas isso dá para viver?”
e nós respondemos
“depende de como queres viver”.

O que é esta livraria, num gesto? Como é que se move, como é que se estende, como é que deixa de ser uma loja para se tornar um passo? [a rapariga sai]
Esticando o braço,
movendo a mão,
abrindo mais os olhos,
inclinando ligeiramente o pescoço,
assim se vai fazendo uma livraria.
Depois dão-se umas quantas coincidências, encontram-se pessoas, criam-se desafios. E, podem crer, a cada livro vendido, nós vamos lá dentro. [a rapariga volta, vai, afinal, levar já o livro] Depois, ficamos atrás do balcão, vendo-nos ir: o tanto que ganhamos, o multibanco não contempla.
Talvez, nesta altura, se espere de nós um balanço mas - wise men say - deixem isso para os contabilistas. O nosso balanço só mede o que não se vê: uma soma de improbabilidades aliada à multiplicação de uns quantos milagres.
Trabalhamos matéria sensível.
O texto confunde-se à medida que vamos ficando esclarecidos. Daqui por diante entrará o carteiro, parará uma carrinha para nos deixar uma ou duas caixas com livros, passará o vizinho da loja mais adiante e a menina das flores subirá as escadas para tirar o seu próprio café. Pouco depois, passará o David com novidades. Tudo é escolhido com atenção.O texto não pode crescer, não quer fazer-se importante. Porque o que nos leva até aí não são discursos – são leituras.
Eles perguntam
“mas isso dá para viver?”
e nós respondemos
“depende de como queres viver”.
Dois anos de livraria e continuamos sem Porsche, mas temos, garantidamente, pernas para andar.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
Teoria da Conspiração #7 (ou a liberdade é escravidão)

«Enquanto não tomarem consciência não se revoltarão e enquanto não se revoltarem não poderão tomar consciência».
George Orwell, "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro", Antígona, 1991
"Ora, em Paris tive uma visão. Uma coisa formidável. Não estava bêbado nem drogado. Um bocado de solidão apenas. Uma visão prometida desde sempre. Subitamente desabrochada.É o sinal de que um ciclo se completou. Então a gente desata a escrever desesperadamente, publica livros."
-"Herberto Helder a obra e o homem" - Maria de Fátima Marinho
Se puderes ver, observa
"Em busca do conhecimento
Observei a noite criando o dia
Enquanto nós
Permanecíamos
Imutáveis."
- Paul Éluard -
Da matéria dos sonhos
"Outrora, chegado o momento de me ir deitar, a ideia de uma morte temporária dentro do sono tranquilizava-me, hoje adormeço para viver algumas horas."
-"Furor e Mistério" - René Char
«Espero a espera. É um esperar que só pára na espera.»

"E não será um grito nem de chegada nem de partida nem sequer, ou muito menos de ficar. O sítio é o mesmo. Muda-se constantemente de tempo e as pessoas aprendem a perder-se nos contornos obscuros da luz. A intensa emoção forma-se de outros ângulos no ponteiro negativo dos olhos. Perfuração do escuro através da pele. (...)
É que não é do tempo que eu quero o tempo. Nem do espaço que eu desejo o peso. É este levíssimo saber em que todos os sinais dizem o mesmo e, se equivalendo, não são mais sinais."
E. M. de Melo e Castro, Entre o Rigor e o Excesso: Um Osso, Afrontamento, 1994
É que não é do tempo que eu quero o tempo. Nem do espaço que eu desejo o peso. É este levíssimo saber em que todos os sinais dizem o mesmo e, se equivalendo, não são mais sinais."
E. M. de Melo e Castro, Entre o Rigor e o Excesso: Um Osso, Afrontamento, 1994
cláudia, tenho cá isto para ti
(e ainda não vi o filme do greenaway mas, dado que acabou de chegar um dvd para um cliente que o encomendou, talvez ele mo empreste?)
com todas as letras
É já na terça-feira, dia 24, que decorre mais uma sessão dos debates Com Todas as Letras, organizados pela revista Os Meus Livros e Sociedade Portuguesa de Autores.
Livrarias de ontem, Livrarias de hoje, Livrarias de sempre
As livrarias são o espaço de excelência para os livros e os seus apreciadores. Em tempos locais de convívio, hoje grandes espaços de consumo, continuam a ser um local de eleição, para todos os que gostam de livros e vivem em torno deles. Grandes redes livreiras, pequenos projectos com assinatura, em Lisboa e não só. Na mesa estarão:
Ernesto Damião – das livrarias Bertrand
Catarina Barros – da livraria Trama (de Lisboa)
Joaquim Gonçalves – livraria A das Artes (de Sines)
O local é o auditório da SPA, Avenida Duque de Loulé, 31, em Lisboa, e a hora, 18h30m.
Livrarias de ontem, Livrarias de hoje, Livrarias de sempre
As livrarias são o espaço de excelência para os livros e os seus apreciadores. Em tempos locais de convívio, hoje grandes espaços de consumo, continuam a ser um local de eleição, para todos os que gostam de livros e vivem em torno deles. Grandes redes livreiras, pequenos projectos com assinatura, em Lisboa e não só. Na mesa estarão:
Ernesto Damião – das livrarias Bertrand
Catarina Barros – da livraria Trama (de Lisboa)
Joaquim Gonçalves – livraria A das Artes (de Sines)
O local é o auditório da SPA, Avenida Duque de Loulé, 31, em Lisboa, e a hora, 18h30m.
(info retirada daqui)

Todos os objectos banais têm a dimensão
que lhes atribuímos
na proporção do que deles somos;
do que neles estamos.
Também os homens.
Luísa Freire, O Tempo de Perfil (1980-2005), Assírio&Alvim, 2009
domingo, 22 de Novembro de 2009
Imediatamente embora pouco a pouco #1
«Viver a abolição do tempo, viver esse momento, rápido como o "relâmpago", pelo qual dois instantes, infinitamente separados, vêm "pouco a pouco embora imediatamente" ao encontro um do outro, unindo-se como duas presenças que, pela metamorfose do desejo, se identificassem, é percorrer toda a realidade do tempo, e ao percorrê-la experimentar o tempo como espaço e lugar vazio, quer dizer, livre de acontecimentos que habitualmente o preenchem . Tempo puro, sem acontecimentos, vacância movente, distância agitada, espaço interior em devir onde os êxtases do tempo se dispõem numa simultaneidade fascinante, o que significa tudo isso?»
Maurice Blanchot, "O Livro por Vir", Relógio D` Água, 1984
sábado, 21 de Novembro de 2009
Passar fome

A propósito de uma pergunta sobre a pátria, o senhor K. tinha dado como resposta:"Passar fome, passo eu em qualquer lado". Nessa altura um ouvinte mais atento perguntou-lhe como era isso de ele dizer que passava fome quando no fim de contas a verdade é que ele tinha de comer. O sr K. justificou-se dizendo:"Provavelmente o que eu queria dizer era que eu posso viver em qualquer lado, se quiser viver onde haja fome. Admito que haja uma grande diferença entre ser eu próprio a passar fome ou eu viver num sítio onde há fome. Mas, se não se importa, eu desculpava-me com o facto de que , para mim, viver num sítio onde há fome, se não é tão mau como passar fome, é pelo menos muito mau. Para muita gente de certeza que não seria importante se eu estivesse a passar fome, mas é importante que eu seja contra o facto de haver fome.
-"Histórias do senhor Keuner" - Bertold Brecht
querido diário
sempre que entro numa livraria tenho muito medo que descubram quem eu sou e corram comigo.
Regra Nº 2 - Dos erros crassos

Caro/a Poeta,
Quando resolveres citar um poeta que idolatras para epígrafe ao teu livro de versejo, assegura cautelosamente que esta introdução alheia não seja maior que a soma das partes dos teus versos.
- Öldin Sehbert -
Ó Xico, não há cá amigos!

"A parvoíce do esperto, a deselegância do elegante: onde é que se radicam? No gosto desenfreado de imitar."
"Cinco destinos guiam o homem: a sua natureza espiritual, o seu corpo, o seu ovo, a sua pátria, a língua: elevar-se acima dos cinco é atingir a condição divina."
"Pensar que todos os céus e os infernos de todas as religiões foram construídos a partir do interior do ser humano: tudo depende da força da projecção para o exterior."
sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
Orelhas de Elefante #9
o Anjo
Lisa Gerrard, "The Black Opal", Gerrard Records, 2009
o Fantasma
Tom Waits, "Glitter and Doom Live", Anti, 2009
Porque há musicas de outras dimensões.
«Canto porque... sou um cantor. Mas uso-vos para isso, porque... preciso de ouvidos».
Max Stirner, "O Único e a sua Propriedade", Editora Antígona, 2004
Cinema Chinês


SUMÁRIO
- Dados históricos
- Introdução à estética e à política do cinema chinês
- Terra Amarela e o novo cinema chinês
- China: cinema, cultura, civilização
- Ao Encantador do Jardim das Pereiras, por Serguei Eisenstein
- Roteiro
- Dicionário
- Cronologia
seda

Nunca
falei com ela
sobre o amor
ou a morte
apenas um gosto cego
e um tacto surdo
corria entre nós
quando
dormíamos juntos
tenho de espreitar
para dentro dela
para ver o que usa no centro
quando dormia
com os lábios abertos
espreitei
e o que
e o que
pensam que
entrevi
estava à espera
de ramos
estava à espera
de um pássaro
estava à espera
duma casa
num grande e silencioso lago
mas o que vi
num contador de vidro
foi um par
de meias de seda
meu Deus
vou-lhe comprar essas meias
vou-lhe comprar
mas o que apareceria então
no contador de vidro
da pequena alma
seria algo
que não pode ser tocado
nem mesmo com o dedo de um sonho
poema de Zbigniew Herbert retirado do livro Escolhido pelas Estrelas
fotografia de Tony Ray-Jones retirada do livro Breves Como Fotos - El retrato en la Colección Fundación Televisa
jacques, o fatalista

O livro Fiasco reúne vários desenhos de João Maria Gusmão, artista representado pela Galeria Graça Brandão.
comecem a pensar no que vão vestir
bem, pelo sim, pelo não, estamos a organizar uma festança de aniversário.
vamos celebrar a improbabilidade de existirmos com a boa disposição habitual, algumas piadas literárias (ou só javardas), champomy para o ricardo e boa música, claro.
será no sábado, 28 de novembro. marquem nas agendas.
vamos celebrar a improbabilidade de existirmos com a boa disposição habitual, algumas piadas literárias (ou só javardas), champomy para o ricardo e boa música, claro.
será no sábado, 28 de novembro. marquem nas agendas.
sabe-se lá como é o cãocrodilo
De vez em quando, os pequenitos acercam-se da janela e espreitam a longa cauda dentada que encrespa a superfície da água. Todos sabem que se trata da cauda do Cãocrodilo.
- O meu pai conta coisas horríveis sobre ele,
- ... que tem dentes aguçados mas engole os peixes inteiros,
- ... que te abocanha e desaparece de repente... - diziam eles.
Hoje à noite, concerto de entrada livre, a partir das 21h30: http://www.myspace.com/caocrodilo
- ... que tem dentes aguçados mas engole os peixes inteiros,
- ... que te abocanha e desaparece de repente... - diziam eles.
Hoje à noite, concerto de entrada livre, a partir das 21h30: http://www.myspace.com/caocrodilo
(ilustração de chris silas neal, foto do cãocrodilo e texto retirado (e modificado) do livro infantil Sabe-se lá como é o Crocodilo...)
quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
o homem da quarta-feira #14

«— Olha, há um tesouro na casa ao lado.
— Mas não há casa alguma aqui ao lado.
— Então construiremos uma!»
Louis Pauwels e Jacques Bergier, "O Despertar Dos Mágicos", Livraria Bertrand, 1973 (relato de um diálogo dos Irmãos Marx)
Diz que fez mais coisas para além do raio da escrita

-"Paixões de Proust" - William C Carter
...diz também que para além da escrita foi quase tudo desilusão, excepção feita às madalenas.
Voodoo Child
Nota aos incautos: quando se quiserem declarar aquela pessoa especial NÃO USEM ESTA VERSÃO do "I put a spell on you".
terça-feira, 17 de Novembro de 2009
a poesia não me interessa #9
traz os cacos azuis debaixo da camisa.
Traz os cacos do mundo num cordão.
Ela sabe as palavras mas limita-se a sorrir.
Mistura o seu sorriso no cálice de vinho:
tens de o beber, para estar no mundo.
Tu és a imagem que os cacos lhe mostram
quando ela, pensativa, se inclina sobre a vida.
Paul Celan, "Sete Rosas Mais Tarde", Livros Cotovia, 1993
"layout"
apetece-me mudar o aspecto deste blogue. gostava de ter uma ajuda. há por aí alguém com A IMAGEM que nos define?
segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
electrocardioTrama #3 (ou a actividade cardíaca da máscara)

«Sonoko estava agora nos meus braços. Respirando com força, ficou afogueada e fechou os olhos. Os seus lábios eram de uma beleza infantil. Mas não despertava em mim qualquer desejo. Apesar disso, eu não desistia de esperar que alguma coisa acontecesse repentinamente dentro de mim - certamente, no momento em que a beijasse, descobriria enfim a minha "normalidade", o meu verdadeiro amor.
A máquina pusera-se em movimento. Nada a podia deter.
Pousei os meus lábios sobre os dela. Passou um segundo. Nem a mínima sensação de prazer. Dois segundos. Exactamente a mesma coisa. Três segundos... Compreendi tudo.»
postal 5
depois do almoçoeu estava com pressa. (a minha avó falava-me dos homens) eu tinha pressa. (a minha avó aconselhava-me leveza) duas ou três coisas para escrever. (é tão difícil ouvir)
enquanto subíamos as escadas
antigamente querias ficar em minha casa, todos queriam. não é que o amor tenha mudado. toda a gente tem as suas vidas, os seus amigos, as suas coisas para fazer. não é?
ana
a casa estalava, parecia-me que tudo caía. acordei com o telefone.
No sábado passado...
a livraria ficou cheia de miúdos: vinham todos ver a apresentação do Animalário Universal do Professor Revillod. Com eles vinham mães de calças de ganga, mães de vestidos com bolinhas, portuguesas, estrangeiras, mães que tratam os filhos por você, mães bem dispostas e mães descontraídas. Também vieram tias e pais, bem como primos e amigos. O piso de cima estava cheio de gente, tanta que se tornou difícil fazer todos os jogos, não havia espaço! As actividades para crianças são das coisas que mais me divertem por isso fiquei lá em cima a assistir, danada por não me ter lembrado que o meu filho também podia ter vindo. Nada de grave, quero que estas coisas comecem a acontecer com regularidade.
o cãocrodilo
apareceu por cá em novembro de 2008. consta que tem em casa um escantilhão, vários post-it azuis e uma guitarra. não é pontual mas sabe fazer lombos de salmão. não gosta tanto de assobios como de um parararara mas nunca o ouvimos cantar. foi visto no Estrela da Bica numa manhã chuvosa, pediu um chá príncipe e nunca mais foi visto (antes das 23h00).esta quinta tocará na Trama. se não houver bailarinas haverá, de certeza, clube de fãs.
http://www.myspace.com/caocrodilo
Mesmo agorinha
O Sr viu ontem o Prof Marcelo... de certeza...tem cá os livros todos que ele falou!- disse uma cliente.
Prof. Marcelo c'est moi!- respondi ao Sr Xú
Prof. Marcelo c'est moi!- respondi ao Sr Xú
Já chegou o novo álbum do Sr Tiago Sousa (versão revista e actualizada)


- "Insónia" - Tiago Sousa & João Correia
Capa a cargo de Pedro Lourenço
(já estou a ouvir a Catarina: Olh'ó enquadramento!)
Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud!

"Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud! Os teus dezoito anos refractários à amizade, à malevolência, à estupidez dos poetas de Paris bem como ao ronronar da abelha estéril da tua família um pouco louca das Ardenas, fizeste bem emespahá-los ao vento do largo, em atirá-los para debaixo da lamina da tua precoce guilhotina. Tiveste razão em abandonar o boulevard dos preguiçosos, os estaminés dos "fala-barato", trocando-os pelo inferno dos animais, pelo comércio dos habilidosos e o bom-dia dos simples.
Esse absurdo impulso do corpo e da alma, essa bala de canhão que atinge o alvo fazendo-o rebentar,sim , é isso a vida de um homem! Não se pode, ao sair da infância, estrangular constantemente o próximo. Se os vulcões pouco mudam de lugar, a sua lava percorre o grande vazio do mundo trazendo-lhes virtudes que cantam nas suas feridas.
Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud! Há alguns de nós dispostos a acreditar sem provas que a felicidade é possível contigo"
- "Este fanático das nuvens" - René Char
domingo, 15 de Novembro de 2009
espécie de oração particular #1

«Agradeço esta injustiça, esta afronta que me acordou, e cuja sensação viva me atirou para longe da sua causa ridícula, mas concedeu força e gosto pelo meu próprio pensamento, ao ponto de os trabalhos que executo terem beneficiado, enfim, da minha cólera; a investigação das minhas leis aproveitou com este incidente»
Paul Valéry, "O Senhor Teste", Relógio D'Água, 1985
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